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quinta-feira, agosto 23, 2007

Atraso e partilha

Ainda recente escutei uma frase que me martelou: "o Brasil não quebra porque é rico demais!" Deve ser verdade.
Mas depois revi um texto lido numa assembléia da ONU para meio ambiente, lido por uma canadense de 13 anos.
Num trecho, ela se pergunta, e transmite a dúvida aos ouvintes, como ela que tinha tudo poderia se sentir sobre haver no mundo crianças que moravam na rua, sem sequer amor e carinho, e que sonhavam em ter dinheiro para tirar as crianças das ruas, matar a fome, e dar amor e carinho?
Como quem tem tudo nega a outros que nem nada têm, educam filhos mas não agem como querem ensinar, sobre cuidar do mundo para as gerações futuras, sem sequer incluir as próprias gerações futuras? Era um apelo, mas era um alerta também.
Muitas vezes está distante de nós esse mundo miserável, que uma jovem canadense constatou nas ruas do Rio de Janeiro, onde se realizava a assembléia. Havia um sentimento tão adulto no texto, quanto verdade na emoção expressa da oradora.
O Brasil é rico, me dizia um concidadão meu, mas a riqueza é partilhada entre poucos no meio de tantos. Sabemos disso. Parece que é isso que segura a possibilidade da evolução do Brasil à era da informática, como com a nota fiscal eletrônica e outros controles digitais e em rede, que ainda é longe da realidade do Brasil grande, e muito interioranos somos...
Ao som do julgamento do mensalão, ouvimos teses sobre fraudes várias, que tiram da riqueza dos que pagam impostos a partilha justa que seria devida aos que vivem à mingüa do que o imposto deveria repartir.
Alguns, como porcos, se chafurdam nas generosas migalhas que a obscuridade criminosa da burocracia lança-lhes, como paga pelas porcarias feitas, como obras, ambulâncias, máquinas... e tudo superfaturado, pelo descontrole que há dos recursos que há, e são muitos.
E fazem dessa generosa porção, como donos de pocilgas, lavagem, com os "recursos" desperdiçados que deveriam ter servido ao futuro. Repartido, em milhões, bilhões, entre bandos de ladrões, não mais que tais, ainda que queiram apenas posar como perdoáveis perpetradores de travessuras políticas permissíveis, num jogo de poder e entre poderes.
O Brasil, é rico sim.
Mas essa generosa e farta sobra a ser "entesourada" deveria nos tornar mais responsáveis com a verdadeira façanha de fazer imediatamente um expurgo da classe política, de todo tipo de espertalhão, que quer se apoderar de "alguns" milhões que podem passar incólumes nos balanços milionários, muitos deles favorecidos pelos governos, que envolvem licitações e serviços públicos, usinas, loteamentos de cargos e terras griladas, bois vivos e "bois nos ares".
São quadrilhas sim, e elas ajudam a banalizar o valor que não tem a vida, como a de 200 mortos num avião, des"controlado" nesse ninho de guacho que chamam caos aéreo, mas se emaranha em gabinetes e documentos que não dizem nada no duro chão da realidade de quem sofre a dor. Ou outros 25 numa cadeia, sob a tutela de um Estado que deveria impedir que bandidos e "milicianos" (robinwoodiana versão para os bandos do tráfico que suprem a orgia brasileira), se armassem, especialmente dentro das cadeias sabotadas pelos que banalizam a vida em todas as falcatruas. E a chave para controlar isso está com os recursos de tecnologia que dispomos, mas não implementamos verdadeiramente, da era digital. Não adianta trancar a cadeia e passar a chave na porta, se não se sabe o que fazer com o quê ou quem se mantém lá dentro, com o respeito que merece o cidadão, em qüalquer classe social.
Há que se cuidar dos bandidos, os sociais e políticos.
Com os superávits de arrecadação, pode-se diminuir a carga de tributos sim. Se fecharem a torneira da esparrela administrativa que criamos para o Brasil.
É melhor talvez largar do pé dos que contribuem com trabalho, que é o que nos sustenta ainda sermos viáveis, antes que a orgia se torne uma terrível e temida anarquia, e conte em suas hordas com quem não quiser mais contribuir para esse "Estado" de "coisas", do outro lado.
Orgia que está a ser contemplada placidamente por um sistema que se orgulha de ser superavitário em arrecadação há 9 anos, e prova (na gestão e no seu planejamento) o descaso à vida perdida, seja num avião, rua, estrada, hospital ou cadeia.
Senão (ou melhor, enfim...), o objeto a que deveria servir o Estado (o homem e o bem comum), continuará, ao contrário, a servir à usura do erário público como contribuintes (para os homens), e antro de quadrilheiros, no caso dos "bens comuns" e sua gestão, repartida generosa entre os amigos do poder.
Mas não lhes interessa a nossa condição de cidadãos, pais de família, maridos e mulheres, filhos. Brasileiros.
Apenas, somos contribuintes.
E tão ausentes...

sexta-feira, julho 27, 2007

Eu quero ser presidente...

Eu queria ser presidente.
Não acho que enfim, ele tenha que se condoer mais que nenhum outro ser humano.
Há uma coisa na lei que deveria ser mudada, para eu ser presidente:
- o presidente não precisaria, depois de ser eleito, ter um partido político para ter direito a concorrer à reeleição.
Teria uma verba X para fazer uma campanha à reeleição independente, como chefe executivo e sem partido, e pronto.
Não sei se esse é o modelo de alguma republiqueta, mas acho que seria mais ou menos um sistema meio getulista, peronista, ou populista, etcétera e tal.
Porém não creio que seria pior do que o que hoje temos.
Eu quero ser presidente,
e queria poder tentar me apegar ao cargo,
não ao poder,
realmente me condoendo mais com a nação
que em mim acreditasse.
Não que eu creia que nosso presidente não se condôa, sinceramente.
Ainda devem haver valores e moral que lho façam sofrer mais que qüalquer um
que não seja muito próximo,
a qüalquer vida que se perca,
ou muito além de sofrimentos
a que muitas vidas passam e se imolam
qüase sempre sem querer.
Não há tôlo que desconheça que também já errou,
e esses valores morais que nos fazem julgar erros,
sempre dizem respeito ao que queremos para o futuro,
não ao que levou aos erros imorais que tenhamos cometido,
ou deixado que cometessem.
Eu queria ser presidente,
e já que é "muito" querer ser presidente,
eu esbanjo em sonhos em dizer que queria ser presidente
e queria ser também o Gilberto Gil.
Então, isso não deve dar prá ser por essa vida agora.
A menos que um gênio numa lâmpada me conceda então três pedidos,
e eu ainda queria voltar a ser eu e ver se dá certo,
torcendo do lado dos anônimos que não têm cargo ou poder.
Gilberto Gil tem um nome sonoro.
É brasileiro típico:
meio acriôlado (como diria um que assim se dizia dos afro-descendentes atuais),
educado, polido, visceralmente ligado ao chão do Brasil,
embora virtuosamente espalhado pelo mundo inteiro, e respeitado.
É inteligente, coisa que temos de mais típica
por todas as culturas que amalgamamos
e esprememos
numa cor morena,
preta,
parda
ou branca, encantadora e apaixonada que soemos ser,
como sói ser também a voz dele,
como afinados e integrados aos tempos modernos da humanidade,
esses em que não se pode mais dizer que não se sabia,
já que todos tudo sabemos,
governistas e oposicionistas,
mas todos, parecem,
querendo apenas "levar uma vantagenzinha".
Gilberto Gil não me parece levar vantagem de ser presidente,
e por isso eu queria ser ele,
para achar que é vantagem,
ser presidente,
sair do partido que me elegeu
e não ser nem governista nem oposicionista,
mas presidente.
E se gostar do fardo da "ré-pública", que possa a ele se recandidatar.
E como bom presidente, só poder ser candidato novamente se um breve plebiscito,
em meio a tão eficiente justiça eleitoral e seu aparato escrutinatório, dizem,
avalizasse com mais de 51% de aprovação pública, votada e computada.
Nada de vaias ou aplausos,
que ai o Presidente Gil,
do Brasil,
seria reeleito em shows, não plebiscitos.
Mas antes disso, ele teria que querer ser presidente,
já que o gênio ainda não tem,
que me torne ele eu e dele eu,
além de me eleger sem passar por partido.
Mas se eu encontrar a lâmpada ou uma garrafa...
Pelo menos, com trânsito ai pelas casas,
tanto do congresso qüanto as nossas,
palácios e palcos do mundo inteiro,
Gil é tão público e tão coerente em seus discursos e vida,
que é sempre mais que ministro,
além de poeta e cantor.
Que se mostra um pensador,
um antropólogo,
um sociólogo,
um defensor de causas por outros dadas perdidas,
e alguém a quem sabemos a capacidade intelectual e a disposição.
Bom, a menos que um super-presidente,
depois de ter combatido o crime, a violência, a corrupção,
venha nos salvar.
Dizia Gil de nossa esperança que um dia um "super-homem venha nos restituir a glória..."
embora dito já por Bertoldt Brecht que é
"infeliz a nação que não tem heróis, mas mais infeliz é a nação que precisa de heróis".
De Brecht a Gil, é preferível hoje que lembremos quantas "frases" nos fizeram,
entre ditos e feitos, que ainda nos faz esperar um salvador (até novelas fizeram!),
mas talvez estejam entre nossos sonhadores
mais salvadores que detratores
do trato feito com a ré-pública.