domingo, julho 25, 2004

Os que se vão depressa...

"Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.
Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos, há pouco, brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava.
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer.
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados,
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.
Os que se vão, vão depressa
Mais depressa que os pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo, nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva que mal faz traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.
Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão ..."

Augusto Frederico Schmidt


Um comentário:

Claw disse...

Schimdt me confessou que fora a visão de uma triste dama linda de negros olhos, que tivera, numa viagem, e que lhe acenara da sacada do hotel em que estava, e onde lhe vira plena em sua beleza morena, coberta por um bikini, quê, ainda que desnudasse a beleza de suas carnes e convidasse a um pensamento de desejo, ainda assim não desvelava permissão.
Schmidt não se conformou em não vê-la na festa à noite, talvez um reveillon, são se lembrou ele.
Lembrou, porém, dela.